Ele nasceu em 12 de janeiro de 1920. Veio ao mundo para transformar e fazer história no futebol. Entrou pela porta da frente. Tornou-se ídolo. Saiu pela porta dos fundos. Virou o louco.

Viveu uma vida livre, mas nada leve.

Quebrou tabus numa alta sociedade na qual ele brilhava como galã, cobiçado por muitas mulheres, que passaram a frequentar os estádios por ele. Parava bares luxuosos ao chegar: “Bem-vindo, Doutor Freitas”. Sim, era formado em advocacia, como o irmão Heraldo, cinco anos mais velho.

Ambos não exerceram a profissão porque não queriam “defender bandido”, muito menos colocar gente inocente na cadeia.

Era oriundo de família rica e descente.

Das peladas com os amigos foi parar no Botafogo, onde brilhou com sua arte, gols e dedicação anormais para um jogador de futebol daquela época.

Era a personificação da Estrela Solitária, o corpo e a alma daquele time. Um atacante elegante, polêmico e um cabeceador fulminante.

Um atleta capaz de humilhar não só os adversários como também os companheiros de time. Afinal, Heleno não perdoava quem não conseguisse efetuar um passe preciso.

Da vida intensa e promíscua adquiriu sífilis, grave doença venérea que, à época, além de não ter cura, levava o doente à loucura. Viveu os último dias em um hospício.

Esse foi o triste final do homem chamado “Gilda”, um dos maiores craques, o primeiro jogador-problema da história do futebol brasileiro.

Heleno de Freitas, se estivesse vivo, completaria hoje cem anos de vida nesta quarta-feira (12). Imagina o que ele teria para contar se tivesse vivido tudo isso, pois morreu, 50 anos atrás pouco antes de completar 40 anos de vida.

Foi tão marcante que virou musical, “Um homem chamado Gilda“, em 1996, interpretado pelo ator Raul Gazzola, depois virou tema de livro, em 2006 com “Nunca houve um homem como Heleno“, do jornalista Marcos Eduardo Neves e, por fim, em 2012, foi parar nas telonas com o filme “Heleno”, de José Henrique Fonseca e estrelado por Rodrigo Santoro.

Dos campos, registros de imagens em movimento só existem dois. Um quando ainda jogava pelo Boca Juniors. Outro de um gol pela seleção carioca. No mais são fotos e muitas histórias de glórias e preconceito que marcaram sua trajetória. Na imprensa, como em tudo na vida, saíram verdades e maldades sobre o craque.

Ao mergulhar nesse universo fantástico e enigmático da vida de Heleno de Freitas, a impressão que tive é que devemos um pedido de desculpas à memória do jogador, em respeito aos familiares que carregam até hoje o fardo de histórias e especulação que não condizem com a realidade de quem conheceu e conviveu com o homem e atleta.

Nessa reportagem especial dos canais ESPN, em comemoração aos cem anos do ex-jogador, abordaremos os aspectos esportivos e humanos de um cara que apareceu no futebol e no imaginário do povo brasileiro para ficar para a história.

“Ele era muito gentil, eu nunca o vi gritando em casa ou falando um palavrão. A única vez que vi ele dar um berro na casa da vovó foi quando o Edu morreu, um amigão dele. Ele soube da notícia pelo rádio. Ele ficou doido. Chorava, batia na mesa, foi um desespero”Herilene de Freitas, sobrinha de Heleno de Freitas

Heleno foi também artilheiro na seleção brasileira e sempre lamentou nunca ter disputado uma Copa do Mundo. Culpa da Segunda Guerra Mundial, que cancelou os torneios de 1942 e 1946. Depois, em 1950, na sua última chance, já com sintomas de demência, ficou fora após o episódio em, brincando, apontou uma arma para o técnico Flávio Costa.

Sobre a derrota para o Uruguai por 2 a 1, afirmou que se estivesse em campo teria aniquilado Obdulio Varela, o líder da seleção celeste, e o Maracanã não viveria aquela tragédia.

A verdade é que naquele ano do Mundial, muita gente próxima a Heleno já desconfiava que algo andava errado na vida dele, e que a cabeça do doutor da bola já não andava perfeita. A própria família dele relutou em acreditar que o ídolo dos campos estava com problemas mentais.

Triste foi a primeira e última participação de Heleno em sua estreia, com a camisa do América-RJ, no Maracanã, em 1951. O craque ficou parado, olhando as arquibancadas, completamente fora de si. Essas são algumas das tantas histórias que abordamos na reportagem em vídeo que você assiste no WatchESPN.

“Desde 1947, ele já dava indícios de que estava muito mal. Em 1949, ele é campeão carioca pelo Vasco. Só que ele chega para o Flávio Costa, que também era técnico da seleção, e aponta uma arma, fazendo uma brincadeirinha. E o Flávio acaba tirando ele da seleção”Marcos Eduardo Neves, jornalista e autor da biografia de Heleno

O lado “B” de Heleno

Não são muitos os pesquisadores que podem falar sobre a vida polêmica do grande futebolista Heleno de Freitas. Isso porque, de uns 20 anos para cá, não só a crônica esportiva, como principalmente os atuais consumidores do futebol, não estão ligando para as histórias daqueles que ajudaram a construir a trajetória do nosso amado futebol.

Preste atenção, são poucos os jornais, programas de rádio, televisão e sites na internet que abrem espaços para contar as gloriosas histórias.

Muitos pensam que a vida começou agora, apenas com as atuais estrelas da bola, se esquecem que o passado, que os nossos ancestrais abriram picadas no facão para que enfim fossemos respeitados no mundo inteiro como o país do futebol. E, se já não somos, aí é outra questão, mas o que foi construído é inegável.

A impressão que se tem é que estamos, definitivamente, apagando o que há de mais rico dos tempos dourados do nosso futebol. Portanto, se pouco ouvimos falar de Zizinho, Leônidas da Silva, Canhoteiro, Didi, Garrincha, enfim, nesse aspecto, apenas os feitos de Pelé ainda sobrevivem. Confesso, com medo, sem saber até quando.

É claro que o novo, o atual são fundamentais, mas se tivéssemos uma cultura de reconhecimento com os mais velhos, os professores, os desbravadores, como o Japão por exemplo tem, com certeza seríamos uma outra nação esportiva, social, econômica e cultural.

É por isso que insistimos, mesmo sabendo que este tipo de reportagem não mobiliza multidões a favor dos cliques e nos números do IBOPE, sempre subjetivos e muitas vezes injustos com o trabalho que alguns jornalistas teimam fazer.

Nessa missão, em forma de reportagem especial dos canais ESPN, mergulhamos em dois universos da vida do ídolo do Botafogo. São depoimentos e registros colhidos por familiares, como os das sobrinhas, Herilene e Helenize, entrevistas realizadas por pesquisadores que investigaram a vida do ex-jogador e depoimentos de quem viveu e jogou com Heleno.

A reportagem também levantou uma discussão a fim de esclarecer se a obra cinematográfica feita sobre o Heleno é ficção ou documental.

As histórias exibidas e os conflitos mostados mexeram com a família, que diz ter encontrado vários fatos “mentirosos” no filme.

“Ele não foi indigente. Isso é uma coisa que pertubou a família toda. A gente via o sacrifício que o meu pai fazia”Herilene de Freitas, sobrinha de Heleno de Freitas

Um filho à procura do pai

Existe um homem, filho único de Heleno, que carrega na veia o sangue de um pai que ele não teve contato. Luiz Eduardo de Freitas, 71, é fruto do casamento do ex-jogador com uma linda mulher de nome Ilma.

Foi um casamento relâmpago, pois Heleno não levava jeito para levar um matrimônio a sério. Era cidadão do mundo, da noite e de todas as mulheres que o cobiçavam.

Assim a mãe de Luiz não aguentou o tranco de viver ao lado de um marido que a deixava grávida no hotel e partia para a vida noturna como se fosse solteiro. Segundo histórias contadas pelo próprio Luiz Eduardo, sua mãe, ainda grávida, vivia sozinha no período em que o casal morou em Buenos Aires, quando Heleno vestia a camisa do Boca Juniors.

Como já dissemos aqui, a beleza e elegância de Heleno eram os maiores cartões de visita de um cara que não precisavam muito de conversa para conquistar as mais belas mulheres da sociedade. Aliás, dizem as boas e as más línguas que até a Evita Perón, primeira-dama da Argentina, teve um caso com Heleno durante sua curta passagem pela Argentina.

Por causa de atitudes como essas, Ilma resolveu abandonar o casamento e ir embora com o filho, ainda bebê. Logo depois, ela se casou com um político mineiro, um homem muito influente, que não permitia que ela falasse ao filho o nome de Heleno dentro de casa.

O curioso é que durante a infância, Luiz jogava futebol de botão e tinha como principal jogador, Heleno de Freitas. Mal sabia ele que na brincadeira gritava gols do próprio pai.

A bela Ilma não teve sorte nos dois casamentos, mesmo no segundo que durou cerca de 14 anos, até porque, de acordo com depoimentos de familiares, o segundo marido era agressivo e morria de ciúmes da relação relâmpago que ela teve com Heleno.

Luiz Eduardo só ficou sabendo da verdadeira história do pai em novembro de 1959, quando tinha dez anos de idade, no dia em que foi dada a notícia da morte de Heleno de Freitas, num manicômio em Barbacena.

Os canais ESPN estiveram com Luiz Eduardo em fevereiro de 2004, quando preparávamos o especial “100 anos do Botafogo”, documentário premiadíssimo como melhor reportagem de esportes no Prêmio Embratel de jornalismo.

Na entrevista ao repórter Helvidio Mattos, captamos um dos mais belos depoimentos já feitos na história da ESPN no Brasil. Sorte que, na época arquivamos o material bruto, um espetáculo de entrevista. Aliás, parte rica do material, resgatada está na nova reportagem em comemoração ao cem anos de Heleno.

Como destaque, a história da viagem do filho à procura de algum recado que o pai pudesse ter deixado nas parede, agora ruínas, do sanatório de Barbacena.

“Eu gostaria de ter sido ele… porque ele viveu. Ele viveu, cara! Ele não teve uma vida mesquinha. Ele era um catalizador. Ele era o Sol e se apagou…”Luiz Eduardo de Freitas, filho único de Heleno de Freitas

Mulheres com“H”, de Heleno

O legado esportivo de Heleno de Freitas não está apenas nas obras feitas em campo. Do sangue da família Freitas nasceu três fenômenos do esporte.

Um grande exemplo é o saudoso Bebeto de Freitas, um primo que escreveu uma linda história no vôlei brasileiro e mundial, um gestor honesto, transparente e competente, que deixou muita saudade.

Outra prova de que o esporte pulsa no coração e na alma dos Freitas está na dupla de sobrinhas, veteranas e vencedoras, nas quadras e nas piscinas.

Herilene, 77, e Helenize de Freitas, 75, conviveram parte da infância e adolescência com o tio galã. Nêga, que é a mais velha, diz que cansou de andar de mãos dadas com o tio no calçadão ou no Copacabana Palace enquanto as mulheres se derretiam pelo jogador-doutor.

As sobrinhas com “H” também fizeram e continuam escrevendo belíssimas histórias do esporte.

Herilene é nadadora e têm mais de 1.500 medalhas conquistadas nos últimos 27 anos de competições em mares e piscinas do planeta. É campeã másters de provas curtas, longas em diversos estilos, como peito, borboleta e costas. É praticamente imbatível. Nada todos os dias mais de 3 mil metros no clube da AABB de Niterói.

Aos 77 anos de idade tem disposição e gás para dar e vender, sem se privar de uma geladinha, sempre que pode.

Já em São João de Nepomuceno reside Helenize, mais conhecida na cidade e no voleibol como “Belê”, é a única pessoa da família que vive na mesma cidade onde o tio nasceu e foi enterrado. No encontro que tivemos em 2013, conhecemos uma jogadora de vôlei que fez muita história, que jogou muito pela seleção brasileira entre as décadas de 1960 e 1970.

Hoje, aos 76 anos, leva uma vida tranquila, praticando tênis e sempre buscando vencer. É uma figura interessantíssima. Fica ainda mais a vontade e engraçada numa mesa de bar.

“Ele foi um craque, ele foi um Deus, e foi o diabo ao mesmo tempo…”Herilene de Freitas, sobrinha de Heleno de Freitas

Homenagens tardam, mas não falham

Se existe alguém que faz questão de não deixar a memória esportiva de São João Nepomuceno morrer, é Nei Medina de Oliveira. Formado em administração de empresas, ele exerce o jornalismo mais do que uma paixão, e sim como uma missão.

Medina mantém uma coluna em um jornal e em um site da região. Faz um programa de televisão dando espaço para os esportistas da cidade, gente que foi da várzea, ou jogadores que se destacaram no futebol nacional, como o atacante Adil, ex-craque da Lusa, Corinthians, Cruzeiro, entre outros.

Além de cuidar, como se fosse um filho, da memória do esporte local, Nei foi o segundo vereador mais votado na última eleição pelo PSB.

Dez anos atrás, quando foi ao Rio de Janeiro para assistir a um jogo do Botafogo, no hoje estádio Nilton Santos, recebeu um convite da direção do time para contribuir com uma cota para que a equipe da estrela solitária homenageasse o ídolo Heleno de Freitas com uma estátua, que seria colocada ao lado de outros ídolos em frente ao estádio Nílton Santos.

Na época, acompanhado de dois amigos e secretários da prefeitura da cidade, João Daniel Moreira Machado e Roberto Isaías de Almeida Santos, decidiu, em vez de colaborar com o clube, no Rio, levar a ideia de inaugurar um monumento em São João Nepomuceno, berço de Heleno.

A estátua em homenagem ao maior nome do esporte de São João Nepomuceno foi inaugurada há oito anos, no dia 12 de fevereiro de 2012.

Em comemoração ao centenário de Heleno, Nei Medina produziu um documentário, que pode ser acessado no link abaixo. No projeto feito por ele, estão disponíveis histórias fantásticas de craques, jornalistas e velhos amigos que conviveram com Heleno.

“A gente só pode compreender a história desse país através da história de sua memória. Heleno de Freitas faz parte da memória do povo brasileiro, queiram ou não”Walter Carvalho, diretor
de fotografia do filme “Heleno”

Fonte: ESPN.com.br