“Eu não sou Neymar, mas jogo bola”. Quem não se lembra da paródia feita para o jogador do Botafogo ainda na época que jogou e se destacou no Madureira? “Sou o Rodrigo Lindoso, Rodrigo Lindoso”, dizia o refrão. Como de fato, o sobrenome do atleta alvinegro é sugestivo: LINDOSO!  E só não é mais suscetível a brincadeiras do que o do seu companheiro em campo, o atacante Pimpão. E por coincidência, os dois são Rodrigo e fazem gols. Com a diferença que o segundo é atacante e o primeiro é volante e CAPITÃO.

Causa inclusive uma certa estranheza para alguns o fato de Rodrigo Lindoso ser o líder num time que tem o goleiro Jefferson, ídolo e jogador com mais tempo no Botafogo. Mas o volante explica que apesar de vestir a braçadeira em campo e ter sido escolhido para a função por seu perfil sereno e disciplinado, não é o único que efetivamente exerce a liderança nos bastidores. E numa entrevista exclusiva ao Portal Eu, Rio!, Rodrigo Lindoso, capitão do Botafogo de Futebol e Regatas conta tudo sobre sua carreira, o relacionamento com os companheiros e o exercício da liderança dentro e fora de campo. Uma matéria bonita de se ler.

Início da carreira e chegada ao Rio de Janeiro 

Foi em São Luís, minha terra natal. Não cheguei a me profissionalizar lá. Sai muito cedo, 14 pra 15 anos. Joguei campeonatos Sub 15 e Sub 17. Tive a oportunidade de sair a primeira vez pra um clube do Paraná chamado Nacional. Vim para o Rio em 2007. Idas e vindas. Passei por Criciúma, Marítimo Portugal, mas finquei o pé no Rio de Janeiro. Primeiro bairro que cheguei foi Madureira, tive uma identificação boa, foi uma crescente até chegar no Botafogo em 2015.

Visitas a terra natal, São Luís do Maranhão  

Visito São Luís. Tenho uma filha de 2 anos que levo comigo. Ano passado ainda não entendia, mas agora já está grandinha. Procuro sempre passar minhas férias lá. As vezes que não dá, como foi na época do nascimento da mina filha, procuro trazer meus pais para cá e matar a saudade. Pela distância precisa de um folga pelo menos de 2 dias, por isso não vou tanto. Mas sempre que dá eu vou rever os familiares, amigos e tirar um pouco a cabeça do futebol  e procurar descansar.

Responsabilidade de ser capitão do Botafogo

Ser capitão é uma responsabilidade muito grande. Fui capitão na época que jogava no Madureira. Era muito novo. Era uma questão mais pelo destaque que eu estava tento. Mas sempre exerci uma liderança boa, de dialogo. Sempre procurei ajudar os companheiros, pessoas que acabaram de chegar no grupo, conversar. Não é a mesma coisa que o Botafogo em termos de grandeza. Ser capitão também não é ser melhor que o outro. Mas basicamente por causa do perfil que tenho e pela função que jogo. Tem que falar bastante dentro de campo, orientar, ajustar as coisas e procurar a mentalidade que o treinador tem. Temos um grupo jovem, então procuro estar ajudando os novos. Faço isso junto com outros jogadores experientes. Não tem só o Rodrigo Lindoso de capitão. Tem outros lideres. Mas somente um vai carregar a braçadeira dentro de campo. Esse tem responsabilidades a mais, mas procuramos dividir. Tem muita coisa envolvida e pra não ficar em cima de uma pessoa só, tem  outros capitães dentro da equipe. Posso dizer que é uma aventura muito boa, uma responsabilidade muito grande. Eu gosto de responsabilidades. Estou ficando um pouco mais velho e está sendo uma experiência muito boa.

Experiência no Madureira 

Tive uma pequena passagem pelo  Fluminense, depois também uma pequena passagem pelo Criciúma, quando sai e voltei para o Madureira, as pessoas já me conheciam e eu tinha um pouco mais de rodagem, foi quando fui capitão lá. Foi pela vontade de ganhar, pelo bom relacionamento com o presidente do clube e as coisa que aconteceram lá acabaram me ajudando a exercer a função de capitão no Botafogo hoje.

Escolha pela confiança do treinador

Na Europa, o mais antigo do clube é o capitão, ou seja, o que mais tempo de casa tem.  No Brasil não tem essa cultura, é muito mais pela confiança do treinador. Começamos o ano com o João Paulo como capitão, da época do treinador Jair Ventura. Ele se lesionou e o Valentim optou por mim. É mais a escolha do treinador de saber a pessoa que pode contar para passar aos jogadores algumas coisas que não estão ao alcance dele. Ganhei a braçadeira e estou feliz com ela. NR: Agora é aguardar a decisão do novo treinador, Marcos Paquetá.

Outros líderes além do capitão

É uma cultura do futebol brasileiro pegar o jogador de destaque e dar a braçadeira. Tenho meu destaque, faço minhas coisas, mas independente disso honro a braçadeira. E no Botafogo tem o Jefferson, que é ídolo, e independente dele ter braçadeira ou não, assume a liderança. Temos também o Carli, Luiz Gustavo e Dudu que exercem também liderança. No meu caso o posto esta mais relacionado ao meu jeito de agir tanto fora quanto dentro de campo.

Grupo unido e sem vaidade

Futebol é um lugar de muita vaidade e no Botafogo o grupo é muito bom e unido. Temos feito boas campanhas. Quando cheguei em 2015 o clube estava na serie B e passando por algumas dificuldades e hoje já temos um titulo. Sempre falo que o grupo é diferente, bom, unido, que dá um respaldo.

Atribuições do capitão

Tenho poucas dificuldades. Mas as vezes preciso conversar com um jogador que não está num momento bom e também o que está no momento bom mas precisamos que não se iluda. Temos que ficar ligados em coisas de vestiários, horários, se os jogadores estão agindo corretamente, porque um ou outro que sai da linha pode contagiar. Eu, juntamente com esses outros lideres procuro evitar isso.  Não tem coisa mirabolante. São coisas do nosso dia a dia. Pra quem esta de fora pode parecer muita coisa, e é, mas como vivemos no meio a bastante tempo, sabemos lidar.

Cobrança e liderança

Minha maior liderança como capitão é dentro de campo. Sou muito chato na maneira de cobrar a equipe, no geral. Tenho que prestar muita atenção no que o treinador esta pedindo nos treinamentos, para quando chegar dentro de campo estar cobrando dos meus jogadores e me cobrando primeiro. Você tendo um relacionamento bom e respeitoso, cumprindo com suas obrigações, te dá um respaldo junto ao treinador, independente de ser experiente ou não. Eu já tinha sido capitão algumas vezes no Botafogo por um ou outro jogador não estar jogando, mas em definitivo assim é a primeira vez.

Porta-voz do treinador em campo

O capitão é a pessoa que o treinador conversa mais, porque dentro de campo onde ele não consegue entrar a visão é diferente. Então eu sou porta-voz. O treinador cobra bastante do capitão e isso é muito bom, me faz crescer como atleta. Tento ser o espelho do que ele faz a semana toda para que durante o jogo não tenha tantos erros.

Relacionamento com o ídolo Jefferson

Brinco com o Jefferson mostrando a braçadeira: “Estou com isso aqui, mas com todo respeito”. Respeito máximo ao ídolo e isso também vem dele. Temos uma boa relação. Conversamos muito e quando temos dúvidas nos cobramos para melhorar. É o último ano do Jefferson e ele disse que a braçadeira está em boas mãos por tudo que já conquistei no clube, pelo que sou no dia a dia. Tenho uma responsabilidade boa, sabendo que temos um ídolo grande que está se despedindo.

Opinião sobre rodízio de capitães na Seleção 

Vejo que a intenção do Tite é passar uma responsabilidade para o jogador e demonstrar que todo mundo tem seu papel importante.  Demonstra que cada peça que esta ali é de suma importância para Seleção. São dois estilos diferentes com o objetivo igual. No Botafogo e em outros grupos também, tem o capitão mas tem outros que exercem a liderança.

Carinho pelo Madureira e lembrança de outros clubes 

Madureira, tenho uma identificação maior. É um lugar que me sinto bem, muito a vontade. De vez em quando vou lá conversar com o presidente. Praticamente foi o clube que me formatou como profissional. Tenho um carinho enorme. Depois a primeira experiência de atuar num time grande, o Fluminense. Também tive muito aprendizado. Peguei jogadores consagrados, experientes. Foi muito bom, apesar de ter jogado pouco. Sai para o Criciúma por uma oportunidade de jogar mais, acabou não acontecendo por problemas internos. Fique 3 ou 4 meses. Voltei para o Madureira. Mas sempre de cabeça erguida, fazendo o meu trabalho. Sabendo que teria uma nova oportunidade lá e que teria que ficar tranquilo. Fui para o Marítimo ter minha primeira experiência internacional, jogar na Europa. Era um sonho meu. Começou bem, mas só fiquei uma temporada e novamente voltei para o Madureira. Mas sempre sabendo que estava no caminho certo, embora algumas coisas deem errado. Em 2015 surgiu a oportunidade de vir para o Botafogo. Espero ter vida longa aqui.

Lidando com insatisfações

Um exemplo é a substituição de jogadores, nem todos lidam bem. Tem a irritação durante a semana, porque a pessoa sabe que não vai jogar. Eu, quando estou no banco, deixo bem claro que estou chateado sim, mas respeito. Tenho que ficar chateado, porque preciso jogar. Quero dar o melhor para equipe, mas tenho que respeitar meu companheiro e a opção do treinador. Então existe alguma chateação, mas pelo lado positivo. Mas não pode brigar, discutir. Temos que ficar atentos a essas malcriações.

Pouco público no Carioca

Triste. Estadual com pouco público. O formato não ajuda com muitos clássicos. A torcida acaba empurrando pra um jogo mais decisivo. Pegamos referencias fora do Rio que são boas. Nós que fazemos o espetáculo, esperamos sempre casa cheia porque é bom para o público e pra nós. Sabemos que no meio disso tudo existe uma crise, mas esperamos que mude. A união entre clube, jogador e torcedor pode reverter isso. As federações também tem que fazer seu papel. Todos com um só pensamento pode fazer evoluir.

Gratidão ao Botafogo e luta por uma boa temporada

Conquistei o Campeonato Carioca, primeiro título aqui. Um inicio de competição bom e fico muito feliz por isso. Tenho ajudado a equipe, fazendo gols. Espero lutar pela parte de cima da tabela. Sou muito grato ao Botafogo por me abrir as portas, um clube com essa grandeza, está me fazendo crescer como pessoa e profissional. Procuro evoluir sempre pra me ajudar e ajudar ao clube. Sigo nessa caminhada

Fonte: Eu, Rio!