“Falavam que ele não gostava de treinar. Mas, gente, eu via! Tem tanta coisa linda na vida dele que nunca contaram…” As palavras são de Herilene, exímia nadadora, que acompanhou na adolescência a decadência de Heleno de Freitas, craque do Botafogo que morreu louco. Seu tio.

Herilene é filha de Heraldo de Freitas, irmão de Heleno, e irmã de Helenize, também atleta – do volêi – e que vive até hoje em São João de Nepomuceno, no interior de Minas Gerais, na cidade natal do homem que foi goleador, galã, boêmio, louco, doente, esquecido. Enfim, uma lenda do futebol.

A história de Heleno virou livro e filme. O longa “Heleno – o príncipe maldito”, de 2002, inspirado na obra “Nunca houve um homem como Heleno”, retrata a vida do ídolo alvinegro, dos gols em campo às polêmicas fora dele, até os problemas que o levaram à morte, em um hospício, 1959.

Outras histórias de Heleno, que jogou nos anos quarenta, também foram contadas por intermédio de crônicas ou reportagens, mas talvez nunca com os detalhes das memórias de suas duas sobrinhas, filhas do irmão que tentou de tudo para evitar que o craque do Botafogo fosse internado.

Assim como Heleno, Heraldo era formado em advocacia, mas nunca exerceu a profissão. Seguiu vivendo em Minas e, ao saber da condição do irmão no Rio, o foi buscar. Herilene, que tinha por volta de seus 15 anos, também vivia em Niterói; mas Helenize matou as saudades com a mudança.

A ex-jogadora de vôlei lembra das brincadeiras que fazia com o tio, pendurada em seus braços. Lembra também do esforço de seu pai para tentar curar Heleno da sífilis. “Ele pulava muita corda com meu tio, porque falavam que a sífilis poderia ser eliminada pelo suor. Ele até virou espírita”.

Helenize também se lembra de momentos de loucura de seu tio, viciado em éter. “Uma vez, o Heleno pegou uma moto emprestada e desceu uma ladeira, perto da igreja matriz, de pé”, recorda. “Foram chamar meu pai, que buscou ele. ‘Heleno, para casa agora’. E ele foi”, segue ela.

O episódio denota a condição que o ex-botafoguense se encontrava, mas também o respeito que nutria por Heraldo. Dois anos depois daquela descida na ladeira, em 8 de novembro de 1959, o hospício de Barbacena em que Heleno fora internado comunicou sua morte aos familiares.

O último nome que Heleno chamou, segundo os médicos? O de Heraldo. Sua filha Herilene se emociona, se arrepia ao lembrar o episódio e garante: “Meu tio não era aquele do filme”.

Fonte: ESPN.com.br