Você já conversou com um botafoguense? Quase sempre há nele uma saudade do que não viu e a sensação de que se o time está bem há algo errado ou é apenas questão de tempo para a fase virar.

O Engenhão interditado e a perda de peças importantes, principalmente Fellype Gabriel e Vitinho, explicam um dos melhores times do Brasil na temporada 2013 ficar sem um título mais relevante que o estadual conquistado com sobras.

Mas o que justifica mais um fracasso praticamente consolidado na luta por uma simples vaga no que se convencionou chamar de “pré-Libertadores”?

Nem o cansaço de Seedorf. E a ausência da torcida nos estádios, reclamação recorrente do craque holandês e de alguns de seus colegas, é apenas uma consequência lógica desse pessimismo inerente. Às vezes embutido e escondido atrás de reclamações contra as arbitragens, dos complexos de perseguição e de teorias conspiratórias.

Todos efeitos colaterais. Porque o botafoguense não acredita. E pior: se vangloria disso, por fugir da ilusão. Se a torcida do Flamengo é famosa pela confiança excessiva, a do Vasco por gritar mais alto e assumir o posto de principal rival rubro-negro e a do Flu por fazer a festa mais bonita, até por suas cores…a do Botafogo, além do mais belo hino da cidade, carrega o sofrimento. Por isso sofre. E para sofrer é melhor o travesseiro ou o sofá que a cadeira dura do estádio.

Mané Garrincha foi um vencedor. Mesmo sem comandar uma dinastia de títulos alvinegros. Assim como Nilton Santos, conquistou na seleção brasileira e divulgou o nome do clube em todo o mundo. Mas o botafoguense ama Garrincha pela vida errante, por ser uma espécie de “outsider”, contraponto a Pelé. Aquele que tinha tudo para ser e não foi. Ou foi diferente. Pelo fim sofrido. Sempre o sofrimento…

O Botafogo pós-Mané tem um título brasileiro. 1995. Ano em que o Botafogo renovou sua torcida, antes formada pelos fãs de Garrincha, Didi, Quarentinha…e seus filhos. Que já haviam vibrado com o fim do jejum de 21 anos em 1989 e a Conmebol de 1993. Mas mudaram o espírito.

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Túlio Maravilha foi o último grande ídolo recente do Botafogo e levantou o Brasileirão de 1995
O confiante Túlio Maravilha foi o último grande ídolo recente do Botafogo.

Por causa de Túlio Maravilha. Um fanfarrão que estava bem longe de um atacante brilhante. Mas acreditava, confiava no próprio taco. De forma desproporcional, até irresponsável. Que prometia gols e vitórias. E muitas vezes conseguiu. Com a ajuda de Donizete e um time bem montado por Paulo Autuori na conquista nacional.

Transferia confiança ao torcedor que vibra com a vitória, mas sempre com um pé atrás, aquela sensação de que está bom demais para ser verdade.

O Botafogo teve outro ídolo marcante: Loco Abreu. Mas mesmo o uruguaio, que confiava tanto em si que cobrou pênaltis em clássico decisivo e Copa do Mundo com cavadinhas suicidas, se deixou envolver pela quase certeza de que tudo acaba dando errado. Também não conseguiu títulos ou feitos além das fronteiras do Rio de Janeiro.

Mais um ano em que um bom time alvinegro não chega porque na hora de decidir títulos relevantes, ou ao menos uma vaga no G-4, sempre falta alguma coisa.

Falta um Túlio, que insanamente confiava tanto que equilibrava a eterna e inexplicável descrença dos que amam a Estrela Solitária.

Este post abre mão dos campinhos, botões e setas. Porque nem a tática é capaz de explicar o Botafogo.

Fonte: Blog Olho Tático - ESPN.com.br